A arquitetura internacional de mensuração e divulgação de emissões de gases de efeito estufa atravessa um momento de transformação.
Nas últimas décadas, a consolidação de metodologias de contabilização de carbono permitiu avanços significativos em matéria de transparência climática corporativa. Empresas, investidores, governos e organismos multilaterais passaram a dispor de instrumentos mais estruturados para identificar, mensurar e comunicar emissões associadas às atividades econômicas.
Nesse processo, o Greenhouse Gas Protocol — GHG Protocol assumiu posição central ao consolidar a classificação das emissões corporativas em Escopo 1, Escopo 2 e Escopo 3, estrutura que se tornou referência internacional para inventários de gases de efeito estufa.
Entretanto, a crescente sofisticação das políticas climáticas e das estratégias de investimento sustentável passou a revelar uma questão metodológica relevante: mensurar apenas as emissões geradas por uma organização é suficiente para avaliar sua contribuição efetiva para a transição para uma economia de baixo carbono?
A questão é especialmente importante para empresas cujos produtos, tecnologias ou serviços podem apresentar emissões próprias relevantes e, simultaneamente, provocar reduções muito superiores de emissões quando utilizados por terceiros.
É nesse contexto que ganha relevância o conceito de emissões evitadas — avoided emissions, entendido como uma métrica potencialmente capaz de complementar os inventários tradicionais de gases de efeito estufa e oferecer uma perspectiva adicional sobre a contribuição climática de determinadas soluções tecnológicas.
Os inventários corporativos estruturados segundo os Escopos 1, 2 e 3 cumprem função fundamental na governança climática.
De maneira simplificada:
Todavia, ela não foi originalmente concebida para responder integralmente a uma segunda pergunta:
quanto de emissão global deixou de ocorrer porque determinada empresa colocou no mercado uma tecnologia, produto ou serviço de menor intensidade de carbono?
Essa distinção é particularmente relevante sob a perspectiva econômica.
Uma empresa pode apresentar crescimento de suas emissões absolutas em razão da expansão de produção e vendas e, ao mesmo tempo, comercializar tecnologias capazes de substituir alternativas significativamente mais intensivas em carbono.
Se a análise se limitar ao inventário corporativo tradicional, parte relevante desse benefício sistêmico pode permanecer invisível.
É precisamente essa lacuna que a discussão sobre emissões evitadas procura enfrentar.
Segundo a abordagem divulgada pelo World Business Council for Sustainable Development — WBCSD, as emissões evitadas correspondem, em essência, ao impacto positivo obtido quando se compara a emissão associada a uma solução de baixo carbono com aquela que ocorreria em um cenário alternativo no qual essa solução não estivesse disponível.
A lógica pode ser representada, de forma simplificada, pela seguinte relação:
Emissões evitadas = Emissões do cenário de referência − Emissões associadas à solução de menor carbono
Assim, diferentemente do inventário convencional, que busca responder “quanto a organização emitiu?”, a mensuração das emissões evitadas procura responder:
“quanto deixou de ser emitido em comparação com uma alternativa plausível?”
Essa diferença conceitual é decisiva.
As emissões evitadas não representam, necessariamente, uma redução das emissões próprias da organização. Representam uma estimativa da redução potencial ou efetiva de emissões produzida no sistema econômico a partir da adoção de determinada solução.
Consequentemente, a métrica deve ser tratada como complementar, e não como mecanismo destinado a apagar, compensar ou substituir as emissões constantes dos inventários de Escopos 1, 2 e 3.
Sob a perspectiva técnico-jurídica, é essencial distinguir emissões evitadas de compensações de carbono.
Na compensação, uma organização busca neutralizar, total ou parcialmente, determinada quantidade de emissões por meio de reduções, remoções ou créditos gerados em outro projeto ou atividade, conforme as regras aplicáveis ao respectivo mercado ou programa.
Nas emissões evitadas, a lógica é distinta.
Busca-se demonstrar que determinado produto, serviço ou tecnologia gera emissões inferiores àquelas que seriam produzidas pela solução de referência.
Portanto, em termos conceituais:
Inventário de GEE
→ mensura emissões atribuíveis à organização.
Reduções internas
→ demonstram diminuição das próprias emissões ao longo do tempo.
Créditos ou compensações
→ correspondem a reduções ou remoções reconhecidas segundo regras específicas e utilizadas conforme determinado regime.
Emissões evitadas
→ estimam a diferença entre as emissões de uma solução de baixo carbono e as emissões que ocorreriam em um cenário alternativo de referência.
A distinção é indispensável para evitar dupla contagem, alegações ambientais enganosas e interpretações equivocadas por investidores, consumidores ou reguladores.
O debate internacional apresenta casos empresariais que ajudam a compreender essa diferença.
A japonesa Toray produz, entre outros materiais, plásticos reforçados com fibra de carbono utilizados na fabricação de aeronaves.
A incorporação desses materiais pode reduzir significativamente o peso estrutural de uma aeronave. Segundo o exemplo apresentado pelo World Economic Forum, determinadas aplicações podem produzir redução de peso de até 20% em comparação com modelos convencionais, associada a uma redução aproximada de 7% das emissões ao longo do ciclo de vida da aeronave.
Do ponto de vista do inventário da fabricante do material, entretanto, esse benefício climático gerado durante a utilização da aeronave não aparece necessariamente como redução das próprias emissões.
Surge, portanto, uma assimetria informacional: o inventário evidencia a pegada do fabricante, mas não necessariamente toda a contribuição sistêmica de seu produto.
Outro exemplo é o da fabricante de equipamentos de climatização Daikin.
De acordo com os dados apresentados na publicação, a empresa reportou 313,09 milhões de toneladas de CO₂ em 2024, das quais 262,6 milhões de toneladas — 83,9% — estavam relacionadas à fase de utilização de seus produtos no mercado.
Ao mesmo tempo, a comercialização de produtos mais eficientes teria contribuído para uma redução estimada de 48,2 milhões de toneladas de CO₂ naquela mesma etapa de utilização.
O caso ilustra uma questão central da contabilidade climática: a mesma empresa pode apresentar elevado volume de emissões associadas ao uso de seus produtos e, simultaneamente, contribuir para que essas emissões sejam inferiores às que ocorreriam caso fossem utilizadas tecnologias menos eficientes.
A Panasonic, por sua vez, desenvolveu a métrica denominada Contribution Impact, destinada a demonstrar como determinadas soluções da companhia contribuem para a redução de emissões de seus usuários.
A companhia também passou a defender o desenvolvimento de padrões internacionalmente reconhecidos para a mensuração desse tipo de impacto.
A experiência mostra que a discussão deixou de ser puramente acadêmica e passou a integrar estratégias corporativas de sustentabilidade, inovação tecnológica e posicionamento perante investidores.
Embora o debate tenha adquirido maior visibilidade recentemente, a ideia de mensurar emissões evitadas possui trajetória anterior.
Em 2013, a indústria química já havia produzido metodologia dedicada à avaliação e divulgação desse tipo de contribuição.
Posteriormente, em 2017, a Task Force on Climate-related Financial Disclosures — TCFD incorporou entre suas recomendações referências às emissões de gases de efeito estufa evitadas ao longo do ciclo de vida de produtos.
Nos anos seguintes, entretanto, uma dificuldade metodológica tornou-se evidente: algumas empresas começaram a apresentar emissões evitadas de maneira que poderia sugerir sua dedução direta do inventário corporativo.
Essa prática produz um problema de natureza informacional.
Uma empresa responsável, por exemplo, por 10 milhões de toneladas de emissões não deveria simplesmente declarar uma “emissão líquida” inferior porque estima que seus produtos evitaram determinada quantidade de emissões em terceiros.
Inventário e contribuição climática são grandezas metodologicamente distintas.
Com o objetivo de reduzir essa ambiguidade, o WBCSD publicou entre 2023 e 2026 uma série de orientações sobre emissões evitadas, defendendo, entre outros pontos, que esses resultados sejam calculados e reportados separadamente dos inventários tradicionais de GEE.
A evolução recente sugere que as emissões evitadas começam a ultrapassar o campo das metodologias voluntárias empresariais.
Em 2023, ministros de energia e meio ambiente do G7, reunidos em Sapporo, reconheceram a relevância do conceito.
No Japão, a GX League desenvolveu documentos e metodologias destinados à utilização das emissões evitadas, especialmente sob a perspectiva das oportunidades climáticas associadas às empresas e suas tecnologias.
Em 2026, a International Electrotechnical Commission — IEC publicou norma internacional relativa à quantificação e comunicação de emissões evitadas provenientes de produtos e sistemas.
No mesmo contexto de evolução normativa, o GHG Protocol iniciou consulta pública relacionada a “actions and market instruments”, incluindo discussão específica sobre emissões evitadas decorrentes do uso de produtos vendidos.
O movimento institucional é relevante porque indica a possibilidade de desenvolvimento progressivo de padrões internacionais mais consistentes para a matéria.
A credibilidade de qualquer mensuração de emissões evitadas depende essencialmente da definição de um cenário de referência — baseline.
Considere-se determinado veículo elétrico.
As emissões evitadas dependerão da alternativa utilizada para comparação:
Por essa razão, uma métrica de emissões evitadas somente possui valor informacional se vier acompanhada de transparência metodológica suficiente para permitir a reconstrução do raciocínio e, idealmente, sua auditoria.
Entre as informações relevantes estão:
Quanto maior for a utilização de uma métrica ambiental para captação de recursos, concessão de crédito, comunicação ESG ou afirmações publicitárias, maior deverá ser o nível de evidência capaz de sustentá-la.
A expansão do conceito de emissões evitadas também produz riscos.
Uma organização poderia, por exemplo, selecionar deliberadamente um cenário de referência excessivamente intensivo em carbono para maximizar artificialmente o volume estimado de emissões evitadas.
Da mesma forma, diferentes empresas poderiam atribuir a si próprias a totalidade de uma mesma redução sistêmica.
Imagine-se uma cadeia envolvendo:
Sem regras adequadas de atribuição, mais de um agente poderia reivindicar integralmente a mesma emissão evitada.
Sob a ótica da integridade ambiental, isso exige mecanismos para prevenir:
seleção oportunista de baseline;
dupla contagem;
superestimação de impactos;
ausência de adicionalidade econômica ou tecnológica;
comparações com tecnologias obsoletas;
omissão de efeitos negativos no ciclo de vida;
comunicação capaz de induzir investidores ou consumidores a erro.
A consolidação jurídica e regulatória das emissões evitadas dependerá, portanto, não apenas da existência de metodologias de cálculo, mas também de regras de disclosure, controle, asseguração e responsabilização.
Um dos aspectos mais relevantes do debate atual consiste em compreender as emissões evitadas não apenas como indicador ambiental, mas como possível métrica de oportunidade econômica.
Nas estruturas tradicionais de gestão climática, parte significativa do enfoque esteve concentrada na exposição das empresas aos riscos:
quais empresas possuem produtos e tecnologias capazes de se beneficiar economicamente da própria descarbonização da economia?
A resposta possui evidente relevância para ESG e finanças sustentáveis.
Uma companhia cuja receita esteja associada a tecnologias que substituem soluções intensivas em carbono pode apresentar vantagem competitiva estrutural em cenários de transição energética.
Nesse sentido, emissões evitadas podem funcionar como indicador complementar de:
A consolidação das emissões evitadas como métrica relevante dependerá em grande medida de sua incorporação às decisões de investidores, bancos, gestores de ativos, seguradoras e demais instituições financeiras.
O World Economic Forum destaca experiências como as da Nomura e da Schroders, que vêm avaliando aplicações da métrica em análises de investimentos.
A lógica econômica é importante.
Uma empresa pode aumentar suas emissões corporativas porque sua produção cresceu. Se, entretanto, o aumento da produção corresponder à expansão de tecnologias que substituem alternativas mais intensivas em carbono, uma análise baseada exclusivamente no inventário poderá produzir leitura incompleta de sua posição na transição climática.
Isso não significa desconsiderar suas emissões.
Significa complementar a análise.
Um modelo mais sofisticado poderia considerar simultaneamente:
pegada de carbono da organização + trajetória de redução das próprias emissões + contribuição potencial de suas soluções para a redução de emissões de terceiros.
A discussão possui implicações diretas para transition finance.
Nem todas as tecnologias necessárias para a descarbonização são produzidas por organizações com baixa pegada absoluta.
A fabricação de determinados equipamentos para energia renovável, baterias, redes elétricas, materiais avançados, sistemas de eficiência energética, tecnologias de captura de carbono ou infraestrutura de mobilidade pode envolver emissões industriais relevantes.
Se o sistema financeiro avaliar essas atividades exclusivamente pelo volume absoluto de emissões do produtor, poderá subestimar atividades fundamentais para a redução das emissões da economia como um todo.
As emissões evitadas podem, portanto, contribuir para identificar situações nas quais existe diferença entre:
a intensidade de carbono da empresa produtora
e
o efeito de descarbonização proporcionado pela tecnologia produzida.
Sob essa perspectiva, a métrica poderia atuar como elemento adicional na análise de elegibilidade de financiamentos destinados à transição.
É necessário estabelecer um limite conceitual inequívoco.
O reconhecimento das emissões evitadas não pode transformar-se em justificativa para a manutenção indefinida das emissões próprias da organização.
Uma empresa não deveria sustentar:
“Minhas emissões corporativas aumentaram, mas isso é irrelevante porque meus produtos evitam emissões de terceiros.”
Essa interpretação comprometeria a integridade ambiental da métrica.
Uma estrutura robusta exige dois movimentos simultâneos:
Primeiro: redução contínua e demonstrável das emissões de Escopos 1, 2 e 3 da própria organização.
Segundo: mensuração separada e metodologicamente consistente do impacto positivo gerado por suas soluções sobre as emissões de terceiros.
Portanto:
emissões evitadas não substituem descarbonização corporativa.
Elas podem demonstrar outra dimensão da contribuição empresarial à transição.
Caso a métrica seja incorporada à estratégia ESG, sua utilização deverá ser submetida à mesma lógica de governança aplicável a outras informações materiais.
Isso envolve, entre outros elementos:
a empresa consegue demonstrar não apenas quanto emite, mas também se seus produtos e serviços estão ajudando seus clientes a reduzir emissões de maneira mensurável?
A resposta poderá tornar-se progressivamente relevante para competitividade, reputação, valuation e acesso ao capital.
Sob o prisma jurídico, quanto maior for a materialidade atribuída às emissões evitadas, maior será a necessidade de disciplinar sua comunicação.
Uma divulgação robusta deveria permitir distinguir claramente:
No campo do mercado de capitais, essa distinção assume importância adicional sempre que tais informações forem materialmente relevantes para decisões de investimento.
É igualmente importante não confundir a mensuração das emissões evitadas com a geração automática de créditos de carbono negociáveis.
O fato de uma tecnologia gerar redução de emissões em comparação com determinada alternativa não significa, por si só, que essa redução possa ser convertida em ativo ambiental negociável.
Para a geração de créditos, normalmente são necessários requisitos adicionais estabelecidos pelos respectivos programas ou regimes jurídicos, podendo envolver:
toda emissão evitada pode representar um benefício climático comparativo, mas nem toda emissão evitada constitui crédito de carbono.
Essa distinção deve ser observada especialmente em contratos, documentos de investimento, relatórios ESG e materiais de comunicação corporativa.
O debate sobre emissões evitadas revela uma mudança conceitual mais ampla.
A primeira geração da governança climática corporativa esteve concentrada na pergunta:
“Quanto emitimos?”
A etapa seguinte incorporou:
“Quanto estamos reduzindo?”
Agora, uma terceira pergunta começa a ganhar relevância:
“Quanto nossas soluções contribuem para reduzir emissões além das fronteiras da própria organização?”
Essas perguntas não são concorrentes.
São complementares.
Um sistema maduro de informações climáticas poderá, no futuro, combinar três dimensões:
Quanto a organização emite.
Quanto e com que velocidade está reduzindo suas próprias emissões.
Quanto seus produtos, serviços ou tecnologias permitem reduzir emissões no restante da economia.
Essa terceira dimensão aproxima a contabilidade climática das decisões reais de alocação de capital.
As emissões evitadas representam uma das fronteiras mais relevantes da evolução contemporânea da contabilidade de carbono.
O conceito procura responder a uma deficiência concreta dos sistemas tradicionais: inventários corporativos são indispensáveis para identificar a responsabilidade emissora das organizações, mas não necessariamente demonstram de forma completa sua contribuição tecnológica para a descarbonização de terceiros.
Sua incorporação às finanças sustentáveis pode contribuir para direcionar capital a tecnologias efetivamente capazes de reduzir as emissões da economia.
Contudo, essa oportunidade somente produzirá benefícios se for acompanhada de rigor metodológico, transparência, comparabilidade, rastreabilidade e integridade ambiental.
Linhas de base inadequadas, atribuições excessivas e dupla contagem podem transformar uma métrica promissora em instrumento de greenwashing.
Por essa razão, o caminho mais consistente não consiste em substituir a contabilidade tradicional pelas emissões evitadas, mas em desenvolver uma arquitetura informacional capaz de apresentar ambas de maneira complementar.
A transição para uma economia de baixo carbono exige que empresas reduzam suas próprias emissões.
Mas exige também que o sistema econômico seja capaz de reconhecer, financiar e escalar tecnologias que permitam que outros agentes reduzam as suas.
Nesse ponto reside o potencial estratégico das emissões evitadas: transformar a mensuração climática de uma ferramenta exclusivamente voltada à contabilização da pegada ambiental em um instrumento também capaz de revelar a contribuição efetiva para a transição.
Texto técnico-acadêmico elaborado e adaptado a partir de:
NAGAMURA, Masaaki; GONZALEZ ESCALADA MENA, Pelayo. How avoided emissions can help unlock investment in low-carbon innovation. World Economic Forum, 6 ago. 2026. Disponível em: https://www.weforum.org/stories/climate-action/avoided-emissions-unlock-low-carbon-investment/. Acesso em: 9 ago. 2026.
A publicação original discute a necessidade de complementar os atuais sistemas de contabilização de gases de efeito estufa com métricas capazes de reconhecer a contribuição de produtos e tecnologias para evitar emissões e destaca a crescente utilização dessa abordagem por organismos de normalização, empresas e instituições financeiras.
Nota editorial: este texto constitui elaboração técnico-acadêmica em português baseada nos conceitos, dados e casos apresentados na publicação do World Economic Forum, acrescida de contextualização jurídica, de governança, ESG, mercado de carbono e finanças sustentáveis. Não constitui tradução literal nem reprodução integral do artigo original.