Por Jakeline Sipriano de Souza e Whats Neyven e Silva
O biochar vem ocupando espaço crescente entre as tecnologias associadas à agricultura de baixo carbono, melhoria da qualidade do solo e remoção de dióxido de carbono da atmosfera. Seu potencial, porém, não pode ser analisado como uma propriedade uniforme do produto, independente do solo, do clima, da matéria-prima utilizada ou das condições de aplicação.
Uma nova meta-análise global reforça justamente essa necessidade de cautela.
Publicado na revista científica Biochar, o estudo “Warming increases CO₂ emissions in biochar-amended cropland soil” reuniu 2.079 observações pareadas provenientes de 32 publicações científicas para investigar como o aumento da temperatura interfere nas emissões de CO₂ de solos tratados com biochar.
O resultado merece atenção especialmente do setor agrícola, dos desenvolvedores de projetos de remoção de carbono, dos compradores de créditos e dos profissionais responsáveis pela validação jurídica, técnica e contábil desses ativos.
No conjunto dos dados analisados, o aquecimento aumentou as emissões de CO₂ dos solos tratados com biochar em aproximadamente 77%.
Nos solos agrícolas, o aumento chegou a 117,5%.
Em áreas florestais, o efeito observado foi significativamente menor: 30,9%.
Os pesquisadores também verificaram diferenças relevantes conforme as características do biochar. No conjunto analisado, materiais derivados de biomassa lenhosa apresentaram resposta mais intensa ao aquecimento do que aqueles produzidos a partir de resíduos agrícolas ou gramíneas. A magnitude do aquecimento foi identificada como o principal fator explicativo, seguida por variáveis como taxa de aplicação, relação carbono/nitrogênio do solo e características do próprio biochar.
A conclusão não é que o biochar tenha deixado de ser uma tecnologia relevante para a mitigação climática.
A conclusão é mais sofisticada — e, para projetos comerciais, provavelmente mais importante:
o benefício climático do biochar não pode ser presumido apenas porque houve aplicação de biochar ao solo. Ele precisa ser demonstrado dentro das condições concretas do projeto.
Um resultado expressivo como o encontrado em solos agrícolas pode facilmente ser interpretado de maneira incorreta.
O estudo não afirma que 117,5% do carbono contido no biochar seja perdido para a atmosfera.
Também não demonstra que o biochar deixe automaticamente de sequestrar carbono ou que todos os projetos que utilizem essa tecnologia passem a apresentar balanço climático negativo.
O objeto da pesquisa é outro: a resposta das emissões de CO₂ dos solos tratados com biochar diante do aquecimento.
Isso significa que o aumento observado precisa ser incorporado à avaliação do balanço climático líquido do sistema, juntamente com outras variáveis relevantes.
Os próprios pesquisadores alertam que ignorar perdas de carbono induzidas pelo aquecimento pode provocar superestimação do potencial de mitigação climática do biochar, especialmente em sistemas agrícolas. Eles defendem, por isso, que efeitos de temperatura sejam incorporados às análises de ciclo de vida e às estruturas de gestão do carbono do solo.
Essa distinção é essencial para evitar duas conclusões igualmente inadequadas: considerar o biochar uma solução climática automática ou, no extremo oposto, interpretar o novo estudo como prova de sua inviabilidade.
A evidência aponta para uma terceira direção: contextualização, mensuração e monitoramento.
Uma das implicações mais relevantes da literatura recente é que a pergunta deixa de ser simplesmente:
“O biochar funciona?”
E passa a ser:
“Qual biochar, produzido de que matéria-prima, em qual processo, aplicado em qual solo, em qual quantidade, para qual cultura, sob qual regime climático e com qual resultado mensurado?”
Essa mudança é especialmente importante para o agronegócio.
Características do solo e do ambiente já vêm sendo apontadas por outros estudos como determinantes para o desempenho do biochar. Pesquisa anterior publicada na própria revista Biochar, por exemplo, mostrou que combinar propriedades do biochar, condições ambientais, fertilidade do solo e taxas de aplicação pode alterar substancialmente os resultados relacionados às emissões de gases de efeito estufa e à produtividade agrícola.
Portanto, utilizar uma categoria genérica — “aplicação de biochar” — como sinônimo de determinado benefício climático torna-se progressivamente insuficiente.
Em projetos tecnicamente robustos, devem ser conhecidos e documentados, entre outros elementos:
O alerta ganha outra dimensão quando o benefício ambiental esperado é convertido em ativo econômico.
Em projetos de remoção de carbono, estimativas relativas à quantidade de CO₂ removida ou armazenada podem sustentar emissão de créditos, contratos de compra futura, financiamento de projetos e declarações ambientais perante investidores, clientes e mercado.
Nesse ambiente, uma premissa científica não é apenas uma hipótese técnica.
Ela pode transformar-se em premissa econômica e contratual.
Se a quantidade estimada de carbono removido depende de determinadas condições de temperatura, solo, matéria-prima e desempenho, essas condições precisam estar refletidas no desenho do projeto e, quando materialmente relevantes, nos mecanismos de monitoramento.
A ciência passa, portanto, a dialogar diretamente com o MRV — Measurement, Reporting and Verification, ou mensuração, relato e verificação.
Não basta perguntar se determinada metodologia reconhece biochar como rota de remoção.
É necessário examinar também:
quais premissas a metodologia utiliza para transformar a aplicação concreta daquele biochar em toneladas de CO₂ equivalente atribuíveis ao projeto?
E, principalmente:
essas premissas continuam razoáveis diante das condições reais em que o projeto opera?
Uma característica particularmente relevante do novo estudo é que o próprio aquecimento aparece como variável capaz de modificar o comportamento do sistema.
Isso cria uma questão importante para metodologias climáticas.
Um projeto pode ser desenhado com base nas condições ambientais observadas no início de sua implantação. Entretanto, em projetos de longa duração, temperatura, precipitação, regime hídrico, manejo e produtividade podem mudar.
Nesse cenário, um MRV sofisticado não deveria funcionar apenas como instrumento retrospectivo de contabilização.
Ele deve funcionar também como mecanismo de atualização das premissas do projeto.
Isso significa identificar previamente quais variáveis são materialmente relevantes, definir indicadores verificáveis e estabelecer gatilhos capazes de determinar quando determinada estimativa precisa ser revisada.
É uma mudança importante de paradigma:
monitorar não apenas se o projeto executou aquilo que prometeu, mas se as premissas que justificavam o benefício climático continuam válidas.
A permanência costuma ocupar posição central nos projetos de remoção de carbono.
No caso do biochar, porém, o debate sobre permanência não deveria restringir-se à estabilidade físico-química do carbono contido no material.
É necessário distinguir pelo menos duas questões.
A primeira é a persistência do carbono incorporado pelo próprio biochar.
A segunda é o balanço líquido de carbono do sistema no qual esse biochar foi inserido.
Um produto pode apresentar elevada estabilidade e, ao mesmo tempo, interagir com o solo de forma que outras fontes de emissão sejam alteradas.
Por isso, avaliar somente quanto tempo uma fração do carbono do biochar permanece estável pode não ser suficiente para responder à pergunta economicamente relevante:
qual foi o benefício climático líquido efetivamente produzido pelo projeto?
Essa diferença precisa estar clara nos estudos técnicos, nos documentos de validação e na comunicação comercial relacionada aos créditos.
Outra consequência prática está no campo contratual.
Contratos relacionados a projetos de biochar podem envolver produtores rurais, desenvolvedores de projetos, fabricantes do produto, operadores de pirólise, certificadoras, verificadores, investidores, financiadores e compradores de créditos.
A nova evidência científica torna especialmente importantes cláusulas capazes de responder a algumas perguntas.
Quem responde se o desempenho climático real ficar abaixo da projeção?
Quem assume o risco decorrente de alterações nas metodologias?
O que ocorre se novas evidências científicas tornarem necessária a revisão das premissas utilizadas para emissão dos créditos?
Existe obrigação de realizar nova amostragem ou recalcular a remoção?
O vendedor garante simplesmente a entrega de determinado volume de créditos ou garante também determinados atributos ambientais?
Como são tratados reversão, buffer, substituição ou cancelamento de unidades?
Quem arca com o custo adicional de monitoramento se determinada variável climática se tornar material?
Essas questões demonstram por que contratos ambientais não deveriam ser estruturados isoladamente da metodologia técnica que sustenta o ativo negociado.
Quando o objeto econômico é carbono, ciência, metodologia e contrato fazem parte da mesma arquitetura de risco.
A evidência também deve ser observada sob a perspectiva das alegações ambientais.
Afirmar genericamente que determinado produto, projeto ou prática “sequestra carbono” pode ocultar uma quantidade importante de premissas.
Quanto carbono?
Durante quanto tempo?
Comparado a qual cenário de referência?
Sob quais condições?
Com quais emissões associadas?
Com qual grau de incerteza?
A resposta a essas perguntas tende a ganhar importância à medida que mercados, investidores e consumidores exigem maior comprovação de alegações relacionadas à sustentabilidade.
Quanto mais mensurável for uma promessa ambiental, maior tende a ser a importância da trilha documental que permite reproduzi-la e auditá-la.
No mercado de carbono, isso significa preservar não apenas o resultado final da conta, mas também:
dados de origem, metodologia utilizada, versão da metodologia, fatores adotados, laudos, resultados laboratoriais, séries climáticas, amostragens, hipóteses, ajustes realizados e justificativas técnicas.
O valor da evidência está justamente na possibilidade de reconstruir o caminho entre o evento físico e a declaração ambiental.
O novo estudo converge com uma direção que vem se tornando visível na pesquisa sobre biochar: abandonar aplicações uniformes e avançar para estratégias adaptadas às condições específicas de cada sistema.
Estudos anteriores já demonstraram que propriedades do solo, clima, matéria-prima e taxa de aplicação podem produzir respostas diferentes e que a otimização depende justamente da combinação dessas variáveis.
Essa evolução pode ser descrita como uma transição do biochar genérico para o biochar de precisão.
Não se trata apenas de fabricar um material tecnicamente adequado.
Trata-se de desenhar a solução a partir da interação entre:
produto + solo + cultura + clima + manejo + objetivo ambiental.
Para o produtor rural, essa mudança pode significar maior necessidade de ensaios locais e acompanhamento agronômico.
Para quem pretende gerar créditos de carbono, significa uma exigência ainda maior: transformar desempenho ambiental em evidência mensurável e verificável.
A nova pesquisa não precisa ser interpretada como obstáculo à utilização do biochar.
Ela pode representar exatamente o oposto.
Tecnologias climáticas amadurecem quando deixam de depender de afirmações genéricas e passam a operar sob parâmetros mensuráveis.
Quanto melhor a ciência identifica as condições nas quais determinada solução funciona — e aquelas nas quais seu desempenho se reduz —, maior a possibilidade de selecionar projetos efetivamente robustos.
Isso tende a separar projetos bem estruturados de iniciativas baseadas apenas no atributo reputacional de uma tecnologia “verde”.
Nesse contexto, algumas frentes ganham importância crescente:
auditoria técnico-jurídica de projetos de biochar, verificando a coerência entre promessa ambiental, evidência científica, metodologia e contrato;
revisão das premissas de MRV, especialmente quando condições climáticas locais possam alterar resultados;
testes agronômicos e validação local, antes da extrapolação de resultados obtidos em outros solos ou regiões;
stress test climático, simulando como mudanças de temperatura e outras variáveis podem afetar as estimativas de remoção;
contratos baseados em critérios mensuráveis de desempenho, em lugar de descrições ambientais excessivamente abertas;
e contabilidade ambiental estruturada, capaz de preservar dados, premissas e evidências que sustentam cada resultado declarado.
Em um país com dimensões continentais e forte diversidade de solos, regimes pluviométricos, culturas agrícolas e condições térmicas, replicar resultados obtidos em um contexto para outro sem validação adequada representa risco metodológico.
O desempenho de uma solução aplicada em determinada combinação de solo, clima e cultura não deve ser automaticamente extrapolado para outra.
Em regiões agrícolas sujeitas a temperaturas elevadas ou a tendências relevantes de aquecimento, o novo estudo acrescenta uma variável que merece entrar explicitamente na avaliação do projeto.
Isso é particularmente importante quando a aplicação do biochar deixa de ser exclusivamente agronômica e passa a sustentar:
financiamentos vinculados à sustentabilidade, ativos ambientais, créditos de remoção, compromissos corporativos de descarbonização ou declarações destinadas a terceiros.
Quanto maior a consequência econômica da estimativa climática, maior deve ser a qualidade de sua fundamentação.
Há uma transformação mais ampla por trás dessa discussão.
A primeira geração de mercados ambientais frequentemente se concentrou na classificação de determinadas atividades como sustentáveis.
A nova geração tende a exigir algo diferente:
provar quanto benefício ambiental determinada atividade efetivamente produziu.
Essa mudança exige interdisciplinaridade.
Um projeto de biochar destinado ao mercado de carbono pode envolver simultaneamente agronomia, ciência do solo, engenharia, química, modelagem climática, contabilidade de carbono, direito contratual, governança de dados e auditoria.
Nenhuma dessas disciplinas, isoladamente, consegue responder por toda a integridade do ativo.
O desafio passa a ser construir uma cadeia de evidências na qual cada afirmação relevante possa ser rastreada até os dados e premissas que a sustentam.
Talvez a leitura mais importante da nova pesquisa seja esta:
a ciência não está afirmando simplesmente que o biochar funciona menos. Está mostrando que precisamos saber com maior precisão quando, onde, como e em que condições ele funciona.
Isso é sinal de amadurecimento tecnológico.
Mercados de carbono de maior integridade dificilmente serão construídos sobre tecnologias tratadas como categorias abstratas.
Serão construídos sobre projetos concretos, submetidos a condições concretas, capazes de demonstrar resultados concretos.
Para produtores, desenvolvedores, investidores e compradores de créditos, portanto, a pergunta relevante deixa de ser apenas se o biochar possui potencial de remoção de carbono.
Passa a ser:
o projeto específico consegue demonstrar, com dados verificáveis e premissas atualizáveis, qual benefício climático líquido está efetivamente entregando?
É nessa passagem — da promessa ambiental para a evidência auditável — que provavelmente estará uma das principais fronteiras do mercado de carbono nos próximos anos.
Fonte-base: Biochar Today, matéria sobre os efeitos do aquecimento nas emissões de CO₂ de solos tratados com biochar.
Estudo científico: XU, Tongyu et al. Warming increases CO₂ emissions in biochar-amended cropland soil. Biochar, v. 8, art. 106, publicado em 4 de junho de 2026.
O estudo realizou meta-análise global com 2.079 observações pareadas provenientes de 32 publicações científicas e avaliou os efeitos do aquecimento sobre emissões de CO₂ em solos tratados com biochar.
Leitura complementar: literatura científica recente sobre estratégias de aplicação de biochar baseadas na compatibilização entre propriedades do material, características do solo e condições ambientais.
Jakeline Sipriano de Souza
Whats Neyven e Silva
Este artigo possui caráter informativo e não constitui parecer jurídico, recomendação agronômica individualizada ou garantia de desempenho de projetos ambientais.